CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O amor no(s) tempo(s) do caos

caosmoscidade de um devir-mulher e seus acordos provisórios ressonantes

Nelson Job




"Mas às vezes acordo do longo sono e volto-me com docilidade 
para o delicado abismo da desordem."
Clarice Lispector


É possível amor em tempos de caos?

Quando uma sociedade chega a um espécie de "impasse  histórico", vem alguém querendo utopicamente dar um jeitinho na situação. A Grécia do século V a.C., segundo E. R. Dodds em seu brilhante "Os gregos e o irracional", vivia uma situação bifurcante, razão e filosofia de um lado e êxtases religiosos de outro. A suposta solução foi a criação de uma metafísica que abrangesse a fisicalidade humana e a intangibilidade dos deuses: a República do Platão, que era deveras entendiante... Entendo que não haveria sofistas, até aí, de fato, muita gente tem raiva de advogados... Mas também extraditar os poetas? Se bem que, uma República enquanto tal, já é em si um estado não-poético. Mas eis que a Grécia foi entrando em uma era cada vez mais tendenciosamente mística, a despeito dos esforços platônicos.

No século XVII, Spinoza tinha o problema da filosofia cartesiana e da Inquisição. Filósofos separatistas e padres incendiários, o que fazer? Em seu "Tratado Político" ela cria uma democracia, impedindo os escravos e as mulheres - chamadas de imbecillitas ("fracas") - de fazerem parte das deliberações, alegando que nunca mulheres e homens governaram juntos antes na história, sendo que os últimos são melhores, visto que as amazonas assassinavam todo e qualquer menininho que aparecesse por ali. O "príncipe dos filósofos" chega a dizer que um homem só leva a sério uma suposta  inteligência feminina se ele tem um certo tesão nela... Claro que apareceram spinozistas querendo salvar o mestre, dizendo que o livro é inacabado, que essa condição não é permanente, que a Ética possui elementos pró-mulheres se devidamente interpretados etc etc. O fato é que o velho Baruch se mostrou, de fato, um homem de sua época. Talvez o processo jurídico contra a sua irmã - que ele venceu, por sinal - e ter tido caso com Clara Maria Van den Enden - que era chegada um sexo livre - pode ter complicado um pouco sua opinião...

Esse fato nada trivial nos leva a rever a obra de Spinoza. Pensando bem, um cara que diz que um homem livre é senhor de suas paixões, proposta um tanto racionalista e iluminista, ainda que sua obra seja um caso a parte do Iluminismo, em outras palavras: muito melhor! A Ética é, de uma certa forma, teleológica: devemos chegar a Deus, ainda que, no âmbito dos modos, seja tudo processual, em devir. Porém, se devemos chegar a Deus, este é eterno e imutável. Ora, se o objetivo spinozista final é a imutabilidade, claro que Spinoza vai por a mulher de fora, imagine esses modos todos de TPM! A mulher, ou melhor, o feminino, nunca vai permitir que o homem, ou um masculino, seja senhor de suas paixões. É a paixão que desgoverna a teleologia, o projeto, não é a toa que Deleuze e Guattari em "Mil Platôs" vão afirmar que só existe devir enquanto devir-mulher, até os devires que passam pelo homem são devir-mulher.

Mas para todo Spinoza imutável e eterno temos um Bergson em devir sem suporte e com tempos múltiplos: Deus, então, é mutável em "As 2 fontes da moral e da religião". Bergson já não se preocupa com as relações entre homem e mulher, sua filosofia é, por assim dizer, uma nova etapa maturada do que Jung viria a recuperar da alquimia: o Mysterium Coniunctionis, ou, já usando o desdobramento de June Singer em "Androginia": a filosofia bergsoniana, da intuição (ou do pensar-sentir, ontologicamente preciso) é andrógina. 

No contemporâneo, observamos uma curiosa transição em que as institições perdem gradativamente sua relevância. Se ainda queremos um Ética processual, de bons encontros e aumentos alegres de potência, não a queremos teleológica, queremos "apenas" o processo: viva Whitehead em "Process and Reality"! Mas sabemos que aparecerão entristecidos querendo (re)fundar o Estado, com Leis a priori e suas proibições. Não podemos aqui ficar elegendo utopias e destopias. Seriam mais desculpas teleológicas. Podemos, sim, brincar de transtopias, ou (in)ex-topias, no sentido que, dadas as relações em devir selvagem, não se pode extrair daí um conjunto de regras, mas acordos provisórios ressonantes. Um torpor de amantes chega a um "lugar", mas esse lugar não se torna fixo. O casamento é uma forma de traçar as diretrizes dos amantes, trazendo modelos de comportamento em meio as caos amoroso. Mas "casamento" é uma ubiquidade, o cosmos todo casa forças, desejos, o cosmos é processual e relacional. Porém, esse "casamento" não é constante. Nada impede que duas pessoas fiquem juntos por muito tempo, mas necessariamente se alimentarão de alteridade, assumem que acordam todo dia com outra pessoa, o devir que passa já na aurora, modificando o então amado adormecido. O amor em meio ao caos se dá pelas convergências ressonantes de afetos, mas essas convergências precisam se tornar outras, novas convergências. Assim, no amor e no cosmos, não há Estado, tristeza dos escravos. No amor-cosmos-caos existem esses acordos provisórios ressonantes; é a ressonância que funda a linguagem caótica do amor: a poesia em que a separação entre amor e paixão é uma ilusão criada por diferenças de velocidades. Ilusão das dualidades: só existe dualidade quando olhamos com apenas uma perspectiva, ora do um, ora do múltiplo, mas na acontecência coexistem um e múltiplo. É assim que entendemos a complementaridade do Tai-chi, yin-yang: o Tao é enquanto o um e enquanto As Dez Mil Coisas. 

Assim, não falamos mais de Homem e Mulher, mas assumimos que o devir-mulher geram vários sexos, um sexar: infinitos sexos entre os clichês taxionômicos de homem e mulher, em que todos os cariótipos seriam triviais, se não o são, é provalvelmente por assassinatos em massa ao longo da História mais Antiga: déspotas de várias épocas que ordevam a morte da diferença. Nos acordos provisórios ressonantes não é possível um Estado, muito menos um déspota. O déspota surge quando o acordo degenera em Lei. Sonhamos com um "Direito" em que a lei fique subordinada à jurisprudência, e não o contrário. Não há pátria dos Corpos sem Órgãos, os CsO são o golpe de estado intensivo que não gera outro Estado, mas um estado qualquer: devir. O Estado boicota o amor, assim como o amor se dá à revelia do Estado. Mas o contemporâneao é a possibilidade em que a ilusão das dualidades se torne explícita e a amor ressoe mais intensivo. O caos deixa de ser evitado para se intensificar em caosmos

É justamente no Oriente Médio em que surgem os mais autênticos devires-mulheres cinematográficos de hoje: em "A Fonte das Mulheres", de Radu Mihaileanu, atualizando as mulheres de Atenas, em que uma greve de sexo organizada pelas mulheres geram transformações sociais libertadoras e em "E agora, onde vamos?" dirigido, estrelado e co-escrito pela bela Nadine Labaki, em que as mulheres do vilarejo suscitam um devir fazendo com que as tradições sejam abaladas em prol da vida. O poder paradoxal da burca: se, de um lado, a ela "esconde" a mulher, conserva-se o feminino. Feminino esse que o Ocidente explicitou de forma a torná-lo masculino. O feminino não se expõe facilmente, assim como um devir é muitas vezes imperceptível. O sensual se dá na penumbra, já o pornográfico escancara o que deveria ser íntimo. Se não há mais sentido na dualidade ocidente-oriente, também não há sentido na pornografia da mulher masculinizada (histeria de mundo), nem na ocultação do feminino oriental. Sem dualidades, copulam atratores, vortex a media luz.

As cópulas entre vortexes geram outros vortexes: desejos conectantes que se ligam a outros desejos. Não estamos mais em busca de um novo Deus em que se sabe demais acerca Dele, nem de um novo Estado, nem de uma nova Lei. Esse amor, esse devir-mulher, essa caosmoscidade pode nos levar a uma transcendência a posteriori, rumo a um paradoxal profundo não saber. Nem uma orgia do êxtase pagã das bruxas medievais, tampouco uma histeria da mulher-Homem contemporânea, pois o descuido ao cultivo de uma Ética das primeiras levaram à racional degeneração das segundas. Não mais um feminino enquanto incoerência contigente, mas um devir-mulher que transita entre velocidades a despeito da tendência à permanência de um masculino. Se o Bufão dos Deuses ria que só podia crer um em deus que saiba dançar, clamamos então a uma dança do caos com ritmos cósmicos que acordam nossos passos, amores, cópulas e gargalhadas; amores que suscitam caos no mundo, gerando caosmos, afinal, só há amor em tempos de caos!





segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Uma Transcendência a Posteriori: Como Saber Não Saber

Texto apresentado no Congresso Scientiarum Historia V - Filosofias, Ciências e Artes: conexões interdisciplinares
Nelson Job


Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,

destruo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.

"As três palavras mais estranhas" Wislawa Symborska




Turner

Vamos deixar o conceito de devir sem nenhum dique, ou seja, sem que nada possa limitá-lo, e perceber os desdobramentos de tal empreitada. O que se anuncia no limiar do pensamento é, surpreendentemente, uma transcendência, porém, com nuances inéditas.

Engendrando uma nova imagem do pensamento, tropeça-se por gambiarras epistemológicas ao longo do caminho. Se quisermos almejar um plano em que epistemologia e ontologia são imanentes, é preciso evitá-las: gambiarra atômica dos epicuristas diante de Heráclito, gambiarra "categórica" de Kant diante da denúncia do habitus por Hume, gambiarra estatística de Bohr perante o problema do suposto “colapso” de onda da Mecânica Quântica.

Pedimos, “como sempre” - com o perdão da contradição e a favor da denúncia - auxílio a um devir. Pois bem, devir: não mais “a mudança que sempre muda”, pois ainda aqui ficamos a mercê da permanência: o fato de que tudo muda e temos a certeza que sempre vai mudar, gerando um pseudo-paradoxo em que “a única permanência é que tudo muda”: isso é apenas mais uma gambiarra. Devir é mudança, mas mudança que muda, evolução que evolui, diferença que se diferencia, como nos lembra Gabriel Tarde (2003) e Bergson (2006), quando afirma que não há suporte para o devir. Tarde (2003) também nos alerta para os diques no devir. Não precisamos deles (apesar de que a sociedade do controle nos sussurra todo o tempo que sim), mas apenas lidamos com diferentes velocidades, como as diferentes velocidades entre nós (mais rápida) e a pirâmide (mais lenta), diria Whitehead (1994) e lidamos também com ressonâncias. Em devir pululam “entres” e entre nós existem ressonâncias: de criação (o cálculo diferencial criado simultaneamente, mas sem comunicação consciente entre Newton e Leibniz), de geração (o estágio inicial da gravidez humana e os girinos), de amor etc. Devir não precisa ser perdição, apenas aqueles que tentam cultivar o Eu, sobretudo. Devir não é perdição, mas deslocamento enquanto ubiquidade. Nossa bússola são os afetos, as relações; como dizíamos: as ressonâncias.

Em devir, encontramos vários diques no meio do caminho: os epicuristas, como dissemos, o Deus Imutável e Eterno de Spinoza (por mais que os modos que advém desse Deus estejam em devir), o Eterno Retorno de Nietzsche... Deleuze (2009) “aditiva” o Eterno Retorno, afirmando que ele é o eterno retorno da diferença, “o ser do devir, o um do múltiplo, a necessidade do acaso”. Mas, a diferença não estaria perdendo forças ao “retornar”? Até mesmo o devir contranatureza de Deleuze e Guattari (1997), que se torna Natureza, “retorna” a uma natureza, ainda que mutante. “Retornar à Natureza”, ainda que seja outra, é tentar controlar o devir. Deleuze e Guattari nos proíbem, assim, de ir além, seja lá o que isso for. Não adianta recorrer aos conceitos gregos requentados: é preciso permitir que o devir se liberte de qualquer amarra, inclusive da imanência. Não estamos voltando a nenhuma transcendência conhecida:  mundo das ideias platônico, Deus escolástico, mente cartesiana ou imperativos categóricos kantianos. Tampouco voltamos a Plotino (2002) (contínuos entre imanência e transcendência, de ontologia e henologia: os estudo do não-ser), Jung (1991) (trocas entre Kant e Nietzsche, ainda que sincronisticamente apenas o segundo prevaleça), Bergson (1995) (apologia à mística cristã: Deus sou eu, que me crio) e Whitehead (1978) (complementariedade entre imanência e transcendência), mas estamos próximos desse último. Sugerimos outra coisa...

O devir pós-Natureza, absolutamente selvagem, pode levar inclusive à transcendência, pois o devir não tem a priori: não o proíba de transcendência! Se a transcendência ocorre entre a imanência, ela simultaneamente se torna imanência, pois o suposto “nada” é preenchido pelos virtuais imanentes, antes mesmo que a transcendência surja pura. Mas se do devir emerge uma transcendência que transcende o devir, está lançada a transcendência. Se não somos criados por Deus, o que criamos de deuses é secundário; a questão, então, é: poderia, dado toda a acontecência, surgir daí deusinhos transcendentes? Tudo isso enquanto possibilidade, decerto, mas Bergson (1927) sussurrava desde o seu primeiro livro que toda antevisão é uma visão. A transcendência “existe”? Transcende o existir? Não sabemos, mas não é à toa que Deleuze (1995, p. 4) em seu último texto, “A Imanência: uma vida”, lança mão de um campo transcendental afirmando que “há qualquer coisa de selvagem e de potente num tal empirismo transcendental”. Este campo não é a transcendência, mas está no limiar da imanência. Mas ainda nesse texto, Deleuze admite um transcendente produzido pelo plano de imanência:
Pode-se sempre invocar um transcendente que recai fora do plano de imanência, ou mesmo que atribui imanência a si próprio: permanece o fato de que toda transcendência se constitui unicamente na corrente de consciência imanente própria a seu plano. A transcendência é sempre um produto de imanência.

Em toda a sua vida, Deleuze clamou a expulsão que Spinoza fez da transcendência: “Transcendência, doença propriamente europeia.”, Deleuze e Guattari (1995) diriam. Mas acreditamos que Spinoza (2008) quis dizer algo no sentido de que se pensar em Deus, então é imanência, se concebe, então é; em temos deleuzianos: tudo é virtualmente possível. Spinoza participa, assim, de uma egrégora milenar que envolve o ato neoplatônico de Plotino ao desdobrar o Mundo das Ideias platônico transcendente, cheio de conceitos e virtudes em um Uno, que não se concebe, apenas se vislumbra e é continuamente ligado a uma imanência, ainda que este um seja para além de um transcendente platônico, um não-ser. Spinoza, por sua vez, torna este Uno imanente. Se Platão dá referências demais, Spinoza impede qualquer referência. Estamos dizendo que concordamos que, para a transcendência, não há referência, mas isso não quer dizer que ela não possa ser criada.

Mas se se concebe transcendência, ela também surge, a partir de uma imanência. É aqui que se legitima toda a luta spinozista e deleuziana: não se pode conceber uma transcendência a priori. Cairíamos em todos aqueles velhos problemas separatistas: sujeito, objeto; natureza, cultura etc. É apenas a inocência do devir e apenas ela que pode realizar uma transcendência, inevitavelmente a posteriori.

Krishnamurti (KRISHNAMURTI e BOHM, 1995) nos informa que todas as religiões também fracassaram. Diz isso do ponto de vista de quem sempre teve boa vontade com elas. Ele simplesmente chegou à conclusão de que elas não levam a lugar nenhum. Para Krishnamurti, como em Bergson, nos resta nos atermos no aqui e agora, indo além das camadas culturais que nos assolavam de gambiarra em gambiarra epistemológica: identidade, eu, mente, enfim, cultura.

Se "Deus falhou", também falharam os deuses enrustidos dos judeus-ateus: Darwin (Evolução ― Deus biológico falha ao pensar a epigenética, o devir louco de apenas um indivíduo, antes da próxima geração), Marx (Proletariado: Deus histórico que falha na tentativa de predição), Freud (Inconsciente: Deus psicológico falha ao se ontologizar no corpo desejante de um sujeito imanente ao cosmos – o superjecto de Whitehead (1978)) e Einstein (Energia-Matéria: Deus cósmico que falha por não se relacionar com os processos quânticos).

É preciso conceber que, em relação à transcendência a posteriori, nada sabemos a não ser a possibilidade de seu engendramento. Não sabemos se ela existe, sequer se ela é da ordem da existência. Não sabemos se ela é descontínua em relação à imanência, necessariamente contínua. Essa oposição entre contínuo-descontínuo, por demais dialética, seria mais uma gambiarra do pensamento para “saber” algo da transcendência. Essa transcendência, como intuímos aqui, não está “em oposição à uma imanência”, não é uma nova dualidade, e sim, uma outra coisa. Não é “atemporal”, pois não sabemos a relação dela com quaisquer conceitos de tempo. O exercício em relação à transcendência a posteriori é justamente não saber, e o que sabemos, é imanência.

Então não sobrou nada? Talvez os antidepressivos? Os antidepressivos são a gambiarra química diante do mais puro devir selvagem. Antes do Eu cartesiano, a melancolia não era considerada doença, apenas estado anterior e talvez necessário para o júbilo, epifania, contemplação, seja de xamãs, padres ou monges (CHAUÍ, 2000). A construção social-farmacêutica do Transtorno Bipolar (AGUIAR, 2004) fractalizou patologicamente essa dinâmica ancestral. Sem os antidepressivos, temos a gargalhada, até agora, nosso mais precioso conceito, mas não falamos aqui de risinhos de escárnio, alienação, mas sim de plena alegria em saber que não conhecemos, deixamos de nos dedicar ao conhecimento e preferimos intuir saberes (intuição bergsoniana, precisa), sendo pura conexão cósmica até agora, e isso basta, por hora. Só mesmo um socius torpe de químicas imperativas assusta-se diante da morte de um Ego para que, sim, ceda o lugar a um egozinho permeável que contemple o cosmos. Em suma: o mais selvagem devir é o começo do que podemos intuir!

Se nossa herança milenar não nos serve, o que nos serve? Nada. Não temos conceito. Resta o desespero? Não. Temos-somos a acontecência, pululando, emergindo, e o nosso corpo, relacionando-sendo a pura acontecência. Todos os antigos conceitos, como o velho-sempre-novo-devir, podem nos ser úteis, livres dos velhos pré-conceitos, podendo anexá-los, desdobrá-los ao infinito de mística, arte, sonho. Não para usá-los tal e qual, mas como trampolim para a acontecência, que nos obriga a criar-sendo outro conceito, outra acontecência, clamores loucos de inomináveis, impensáveis. Como se diz nas ruas, “um plus a mais”, menos como pleonasmo e mais como clamor de soma! E que seja apenas para abandoná-los diante da emergência do que vier.

De maneira alguma esse clamor de transcendência a posteriori é um dique no pensamento. À luz de um devir, não há pensamento que se “conclua”, a não ser contextualmente, sendo um ato simultâneo de estranhar e entranhar os conceitos engendrados. Assim, estaremos mais consistentes com a alegria de não se pensar contra o mistério e sim, com o mistério: devir mais selvagem do pensamento, além do próprio pensar.

Referências Bibliográficas
BERGSON, Henri, Ensaio Sobre os Dados Imediatos da Consciência. 4 ed. Lisboa Edições 70, 1927.
_______________ As Duas Fontes da Moral e da Religião. Ed. Almedina, Coimbra, 2005.
_______________ O Pensamento e o Movente. 1 ed. São Paulo, Martins Fontes, 2006.
DELEUZE, Gilles, “A Imanência: uma vida” (1995) Disponível em: http://www.4shared.com/file/35407578/cc5a0c80/Gilles_Deleuze_-_A_imanncia_Uma_vida.html Acesso em 20-01-2012.
________________ Nietzsche. Lisboa, 70, 2009.
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix, 1995, Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia vol. 1. 1 ed. Editora 34 Letras, São Paulo.
____________________________________ 1997, Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia vol. 4. 1 ed. Editora 34 Letras, São Paulo.
JUNG, C. G., A Dinâmica do Inconsciente. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1991.
KRISHNAMURTI, J. e BOHM, D. A Eliminação do Tempo Psicológico. 10ª Ed. São Paulo, Cultrix, 1995.
NIETZSCHE, Friedrich, Além do Bem e do Mal – prelúdio a uma Filosofia do Futuro. 2 ed. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.
PLOTINO, Tratado das Enéadas. 1. ed. São Paulo: Polar Editorial, 2002.
SPINOZA, Benedictus de, Ética. 1 ed. São Paulo, Autêntica, 2008.
TARDE, Gabriel, Monadologia e Sociologia. 1 ed. Petrópolis, Editora Vozes, 2003.
WHITEHEAD, Alfred North, 1978, Process and Reality (corrected edition). 1 ed. New York, The Free Press.
________________________ 1994, O Conceito de Natureza. 1 ed. São Paulo, Martins Fontes.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Vortex: Ubiquidade Cósmica


Nelson Job

Este texto em inglês: AQUI



Os transabares emergem das relações entre magia e ciência, mediadas pela filosofia. Disso resulta um amálgama em grandes proporções de conceitos transdisciplinares. Urge forjar um conceito  que atravessa toda a Ontologia Onírica e forneça a plasticidade necessária cuja articulação de conceitos antigos transformados permitiram outrora. Este conceito é o vortex.

O vortex, como aqui o apreendemos, é uma relação de forças em devir selvagem que se auto-organiza em torno de um atrator gerando instâncias no tempo, espaço, ser, ou melhor, na acontecência, de maneira ubíqua. O vortex aparece em outras saberes, como na dinâmica de fluidos, cuja vorticidade tem características matemáticas. Esse vortex específico emerge nos furacões, tornados, nos movimentos do café na xícara. Seu campo vetorial, ou campo de forças são versões do nosso campo relacional, no sentido em que parafraseamos Whitehead: toda relação entre vortexes é em si um vortex. Todos esses vórtices são intuições de um conceito mais profundo de vortex.  Vejamos outras tendências: na teoria da Relatividade, existe vortex de espaço-tempo, efeito de uma massa que deforma o tecido espaçotemporal do cosmos:



Na Mecânica Quântica, a complementariedade onda-partícula é, ontologicamente, um objeto estranho, (um "quantom", como diria Mario Bunge) que envolve características de onda e partícula. Isso é uma intuição do vortex em nossa conceituação, que é uma relação de forças local, porém ubíqua, e sua acontecência se dá singularmente em função dessa coexistência. Tanto um vortex é uma coexistência de vorticidade cósmica não-local quanto tem relação de vizinhança e  relação não-local com um ou mais vortexes. Em suma, o vortex em seu aspecto quântico, ou seja, enquanto quantom, é local e não local, coexistindo de forma mais coagulada localmente e  de forma mais virtual não localmente, porém localidade e virtualidade se sobrepõem.

Os fractais, figuras auto-similares, intuem a ubiquidade do vortex: os vortexes são auto-similares, imanentes tanto à ontologia quanto à epistemologia, ou seja, o vortex é, de fato, na Natureza em seu sentido mais amplo e profundo, ubíquo e auto-similar. A Teoria das Supercordas Twistor - de uma forma mais cósmica e mais ínfima - e a Triangulação Dinâmica Causal - mostrando a relação dos fractais com os fenômenos quânticos - intuem cada uma a seu modo a ubiquidade e auto-similaridade do vortex, bem como sua passagem pelas físicas: quântica, relativísticas e caótica, mostrando que existe um atravessamento por elas, uma transdisciplinaridade, afinal, todas elas descrevem aspectos do cosmos que habitamos e somos.

O conceito filosófico de máquina abstrata (com sua devida explicação mais simples: o atrator estranho) intui o aspecto ontológico do vortex: o vortex é formado por vortexes e compõe outros vortexes e essa monadologia (como também os modos de Spinoza) de vortexes coexiste(m) em vários níveis.

Vejamos esses aspectos ou níveis coexistentes e implicados de vortexes:
.  vortex enquanto epistemontológico, que é pura imanência
.  vortex enquanto cósmico e suas partículas que se autorganizam em astros - o vortex enquanto geológico que se autorganiza na terra
vortex enquanto anímico que se autorganiza nos transindivíduos vivos orgânicos e não orgânicos (e nunca "indivíduos", pois não existe vortex isolado, mas em níveis variáveis e de gradação de relações de vortexes enquanto locais e não locais)
vortex enquanto virtual: o Tempo e sua coexistência em múltiplos tempos, sendo que a linearidade cronológica é um vortex dilacerado, estreitado, preso; o vortex virtual em seu esplendor é coexistência dos tempos, das imagens-sonhos
vortex enquanto espiritual: vortex que povoam o cosmos para além do tempo e do espaço, mas incidindo incidentalmente no tempoespaço, visto que existem relações não locais entre vortexes. Apreendê-lo é o que alguns chamam de "iluminação". O vortex é atual e virtual, mas essa dualidade não faz mais sentido, o vortex é o cone de Bergson em sua fluidez cósmica (tanto Descartes como Newton, mas sobretudo Bergson tentaram anunciar o vortex,  se muito mecanicista nos primeiros, assombrado por certa dualidade, ainda que atenuada, no bergsonismo. Por sua vez, David Bohm sempre quis afugentar o vortex). O vortex é, precisamente, intensivo
. vortex enquanto transcendente: a vorticidade cósmica pode entrar em colapso, a qualquer momento. O vortex    está em devir mais enlouquecidamente selvagem, o que poderia engendrar um colapso mais ou menos alastrador que dele, do vortex em seu estado mais plenamente coexistente, porém, mais intensamente colapsante, pode gerar uma vorticidade transcendente. O vortex transcendente pode deixar de ser vortex, pode deixar de Ser, pode deixar de não-ser, pode. Em suma: o vortex pode gerar uma transcendência a posteriori.

O vortex tem velocidades variáveis, uma determinada mudança na velocidade pode desencadear um processo em cadeia que altera a velocidade de vários vortexes. Porém, quando alguma velocidade destoa da harmonia, instaura-se alguma perda de potência. Um vortex precisa entrar em ressonâncias com os outros, quanto mais ressonância cósmica melhor. Ecos spinozistas: os modos precisam compor com outros modos, gerando aumento de potência, alegria. A ressonância intensiva dos vortexes em seu maior esplendor, gera a mais plena gargalhada cósmica

A relação do vortex com otros saberes:: a arte evidencia o vortex, a ciência modela o vortex, a filosofia ex-plica o vortex, a magia conjura o vortex. A meditação intensifica o vortex, a Ética cultiva o vortex, o amor multiplica o vortex. Os transaberes vivem o vortex. No que saberes definem suas matérias-primas funcionalmente ou através de convenções, a saber: a física com a energia, a biologia com a vida, a psicologia com a consciência e a teologia com Deus; estão todos falando, a seu modo disciplinar, do vortex.

O vortex alucina, traz a Tempestade às entranhas da realidade. Muitas realidades são forjadas utilizando em seu bojo esse ou aquele vortex, ou seja, o vortex advoga uma realidade múltipla, perspectivista. O sonhador ontológico vive em vortex e dorme em seu olho do furação, instância de mobilidade infinita que tende ao zero, mas nunca (ou quase nunca?) chega a zero. Tanto movimento e ausência de movimento, quanto guerra e paz, vida e morte etc, são dualidades enganadoras que o vortex trai, desdobra. "Equilíbrio instável": vertigens  e perversões éticas, assim é o vortex. Vortexear devires até deixar de Ser, até mesmo deixar de não-ser. Vortexologia: devir vortex - multiplicidade vortex - cosmos vortex...




Transcendência a posteriori (verbete)



A transcendência a posteriori é um conceito do transaber conhecido enquanto Ontologia Onírica. Ela é uma possibilidade do devir selvagem, sem diques. Um devir que é de fato imprevisível, pode criar inclusive uma transcendência, que emerge de uma imanência. Essa transcendência a posteriori não tem nada em comum com as transcendências e Transcendentais a priori da filosofia ocidental. Não é uma transcendência platônica (mundo das ideias), escolástica (Deus católico), kantiana (imperativos categóricos) nem um não-ser neoplatônico. Acerca da transcendência a posteriori, nada se sabe: se   ela é dualista, discreta (em oposição a um contínuo), se ela está em oposição a uma imanência? Apenas sabemos que emerge de uma imanência, não necessariamente nela.

Textos deste blog em que aparecem este verbete:





quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Ontologia Onírica: confluências entre magia, filosofia e ciência

Nelson Job 

Texto da apresentação no Coninter 2012
Este artigo em inglês: AQUI

Até adormeço, mas ao mesmo tempo sonhos fortes me mantêm acordado.
Franz Kafka


                                                          Yerka


Magia, filosofia e ciência, entendidas como entrelaçamento de saberes, gerando transaberes, é uma possibilidade que apenas concepções recentes da História da Ciência (e da magia e filosofia) podem permitir. A partir dessa relação, vamos poder conceber uma nova teoria dos sonhos, retirando-os do domínio representacional que a psicologia do século XX relegou-os, produzindo uma assim chamada “Ontologia Onírica”. Além disso, tais conceitos nos impelem a também conceber outra transcendência, a transcendência a posteriori.

Hermetismo em aberto
Definir ‘magia’ é requer cuidado, visto que o historiador de demonologia Stuart Clark (2006) afirma que magia não é nada, ela é o que determinado cenário cultural a estrutura para ser. Uma definição que auxilia a compor com as conceituações deste artigo é a do antropólogo Marcel Mauss (2003) definindo a magia como “a arte das mudanças”. Neste trabalho[1], utilizaremos o exemplar mais influente da magia ocidental: o Hermetismo.

O Hermetismo (Westcott, 2003) é uma confluência entre os saberes ligados ao culto do deus Thoth no Egito Antigo com a filosofia neoplatônica de Plotino. É comumente associado à figura mítica de Hermes Trismegisto (três vezes mestre: do físico, mental e espiritual), que é nomeado tanto como o próprio deus Thoth, como também seu maior discípulo, não existindo nenhuma confirmação histórica de sua existência, o que leva a crer que muito dos textos atribuídos a ele sejam de vários autores que utilizaram sua alcunha. O Hermetismo foi organizado na virada do século XIX para o XX em sete princípios, os quais serão utilizados para tecer as relações com a filosofia e a ciência neste trabalho.

O Hermetismo influenciou a filosofia de Leibniz e Spinoza, além de grandes nomes da ciência. Giordano Bruno (Yates, 1964) baseou suas importantes concepções do universo anímico, infinito, descentrado e dinâmico entre outras inspirações, no Hermetismo. Kepler (Connor, 2005) – que exercia com notável reconhecimento o ofício de astrólogo – também foi influenciado pelos saberes herméticos para compor a sua Harmonia do Mundo. Isaac Newton se inspirou na alquimia e no Hermetismo para cunhar seu conceito geral de força e de gravidade (Dobbs, 1984). Newton retirou da segunda edição de seu Principia a afirmação de sua crença na transmutação da matéria, relegando tal citação em seu Optica. A partir daí, parece possível especular que Poincaré e Einstein tenham, com a equivalência entre energia e matéria, recuperado o Newton oculto.

A influência da física de Newton foi exercida a despeito de suas influências herméticas, mas, a ciência nunca perdeu seu sotaque hermético, sobretudo com algumas peculiaridades da física moderna. Essa física newtoniana purificada, a Inquisição, a postulação de uma linguagem desconectada ontologicamente do mundo (estabelecendo uma separação entre as palavras e as coisas) e o triunfo do Iluminismo, relegaram o Hermetismo, na passagem do século XVII para o XVIII, a guetos sem credibilidade.

Devires
A Filosofia da Diferença, entre outros saberes, vai problematizar as dualidades como natureza e cultura, corpo e mente, sujeito e objeto etc. ou, ao menos, colocá-las em movimento. Utilizaremos aqui a concepção de Filosofia da Diferença como Deleuze (2006) defende em seu livro Diferença e Repetição: pretende-se “tirar a diferença de seu estado de maldição”; não mais subordinar a diferença à oposição, analogia, semelhança, negação, identidade, ou seja, a todos os aspectos da mediação e da representação, pois assim chega-se à diferença pura. Não é inscrever a diferença no conceito em geral. A diferença é afirmação. Não é uma questão de dado, e, sim, de como o dado é dado. O processual é uma tônica extremamente relevante, assim como o conceito de devir: a mudança que muda, sem suporte, continuamente, mas inconstante, eliminando da ontologia a permanência e a transcendência. O devir aqui, a princípio, se equivale ao ser, mas vai além dele, ou seja, a própria ontologia esta em devir na Filosofia da Diferença.

Neste artigo, nos utilizaremos dos sete itens do Simulacro, apresentados por Deleuze, que são considerados por Manuel Delanda (2004), enquanto presentes em toda obra de Deleuze, devidamente alterados e atualizados em planos diferentes de acordo com o problema em questão. Esses itens pertencem a uma ontologia bergsoniana, composta pelo atual, intensivo e virtual.

 O virtual: a coexistência dos tempos, passado, presente e futuro, sendo que o futuro é ontológico, como todo o tempo, mas não envolve a produção do novo: o devir. O atual: o presente que passa, o momento presente e o intensivo: a passagem do atual para o virtual e vice-versa, sendo que um caminho não corresponde ao outro. Atual, virtual e intensivo se sobrepõem, não existindo um virtual ou atual puros (Bergson, 1999). Os Princípios do Hermetismo também se sobrepõem. Como as funções da física moderna dizem do mesmo universo, mas em níveis deferentes, também se sobrepõe, e tal superposição é buscada pela ciência com a alcunha de Teoria da Unificação.

 As diferenças emaranhadas: Vortexologia
Os sete Princípios do Hermetismo serão agora postos em relação com os sete itens do Simulacro e com sete funções da física moderna. Vale lembrar Heisenberg (1999), que já dizia sobre a filosofia de Heráclito: “Se substituirmos a palavra fogo por energia, poderemos quase repetir suas afirmações palavra por palavra, segundo nosso ponto de vista moderno”.

O Princípio de Gênero, no Hermetismo, afirma a relação dos princípios masculino e feminino engendrando a continuidade do universo. Não “homem” e “mulher”, mas princípios cósmicos diferentes e complementares. Deleuze diz que o item do Simulacro chamado centro de envolvimento é o acréscimo de complexidade dos seres vivos, o desdobramento físico-químico, orgânico, não-orgânico[2] e cultural sem envolver um evolucionismo teleológico. Já a cosmologia de Mário Novello (2010) supõe um universo do tipo bouncing, eterno e dinâmico, como no cosmos enunciado por Heráclito. Aqui, as relações entre esses três saberes comungam um cosmos dinâmico, processual, que se autocria de forma contínua em todos os níveis.

No Princípio de Causa e Efeito, de todas as causas anteriores emergem um efeito, ou seja, o efeito não é gerado apenas por uma causa anterior, mas por toda a cadeia de eventos até então, mantendo a ideia que os processos cósmicos são contínuos. Já Deleuze coloca que o molar e molecular são uma dupla articulação que é simultaneamente da ordem da qualidade e da extensão, que na física corresponde às partículas não elementares. Notam-se visões em que existem níveis de organização diferenciados, mas implicados, de forma que fazem parte de um grande processo cósmico.

O mais popular Princípio do Hermetismo é o de Correspondência, que diz: tudo o que está em cima é como o que está embaixo, relacionando o macro com o microcosmos. Na Filosofia da Diferença, há o conceito de mônada, sistematizado por Leibniz, desenvolvido por Gabriel Tarde. Deleuze (2000) conceitua a mônada a partir desses autores afirmando que ela é o espelho vivo e perpétuo do universo, mas tem um andar fechado e ressoante com todo o universo e outro que se conecta diretamente com o universo. O filósofo articula as mônadas com os fractais, figuras auto-similares relacionadas com a Teoria do Caos. O assim chamado colapso de onda também conflui com esses conceitos, no sentido que a mônada, exemplo do intensivo em Bergson, atualiza o virtual, como a onda, na Mecânica Quântica (MQ), se colapsa em partícula. O médico Stuart Hameroff (2002), a partir de seu modelo de consciência quântica criado com o físico Roger Penrose, relaciona a versão do colapso de onda realizado pela suposta gravidade quântica, chamada Redução Objetiva, como um exemplo de mônada. Assim como a monadologia cria um novo estatuto do sujeito, não apriorístico, mas relacional em devir, em que a sequência de mônadas é de onde emerge o sujeito, também a sequência de Reduções Objetivas no cérebro é que cria o fluxo da consciência, diferindo das interpretações convencionais da MQ em que o observador realiza o colapso de onda. Finalmente, a proposta especulativa de gravitação quântica chamada Triangulação Dinâmica Causal (Ambjorn, Jurkiewicz, e Loll, 2008) estabelece uma autossimilaridade fractal no nível quântico da matéria. Todas essas articulações evidenciam uma profunda relação entre os níveis macro e micro do cosmos, mostrando que em cada porção do cosmos abriga a totalidade, ainda que em devir.

O Princípio de Polaridade diz que tudo no cosmos tem o seu oposto que é, na verdade, o extremo de uma mesma coisa; tudo tem o seu duplo, que são diferentes em grau, mas os mesmos em natureza. O conceito de ressonância, que Deleuze desdobra a partir de Gilbert Simondon, afirma uma relação intrínseca de duas instâncias, podendo ser inclusive não-local, sendo que estas duas instâncias, ainda que gerando um processo de individuação, seguem seu processo de diferenciação. Um exemplo seria a ressonância não-local entre Leibniz e Newton ao criarem o cálculo diferencial, mas com formalismos diferentes. Na MQ , o emaranhamento quântico é a relação de simultaneidade entre duas partículas elementares em estado quântico, com algumas diferenças, como a rotação do spin. Aqui, verifica-se nesses três saberes uma relação de simultaneidade entre processos diferentes, mas interligados.

O Princípio de Ritmo mostra que tudo tem fluxo e refluxo no cosmos, padrões de comportamento. O conceito de máquina abstrata em Deleuze e Guattari (1995) também afirma um processo de auto-organização transespacial e transtemporal entre vetores que compõem um padrão. Manuel Delanda (1997), a partir de uma proposta de Prigogine, vai relacionar as máquinas abstratas com os atratores, em que o atrator estranho, na Teoria do Caos, vai se tornar um dos exemplos mais simples de uma máquina abstrata. O atrator estranho é formado por vetores que se auto-organizam, bifurcando fractalmente. Com essas relações, observa-se que o cosmos possui um processo de auto-organização, manifestado em padrões identificados em vários níveis.

O Princípio de Vibração afirma que o cosmos inteiro é vibracional, assim como na Filosofia da Diferença: tudo vibra, evidenciado pelo conceito de multiplicidade entendido como substantivo, não como atributo ou adjetivo. Diferença de diferença produzindo divergência e descentramento. Aqui os vetores começam a aparecer, mas o sentido e a ligação ainda não estão definidos. Uma das Teorias de Unificação, a Teoria das Supercordas (Greene, 2005), também supõe um cosmos vibracional, de cordas que vibram de formas diferenciadas gerando as diferentes manifestações das partículas elementares. Não é preciso apostar nas supercordas como um todo, aqui é enfatizado esse aspecto vibracional. Nesse item é fácil relacionar tal aspecto vibracional tanto no Hermetismo, na filosofia e na física: tudo é vibração.

Finalmente, no Princípio de Mentalismo[3] o cosmos é mente e a matéria é entendida como uma coagulação dessa mente. O plano de imanência, conceito de Deleuze e Guattari (1992), é a diferença pura, a velocidade infinita, o zero positivo. O plano coexiste com o caos e não pode ser pensado sem ele. Deleuze e Guattari pensam o tempo da filosofia como coexistência de vários planos, sem eliminar o antes e o depois. Na MQ, o vazio quântico é a função que mais se aproxima desses conceitos, pois é formado por uma complexa estrutura de relação de opostos, que se cancelam, mas que podem ser excitados de forma a suscitarem alguma forma material. Existem vários exemplos de uma estrutura semelhante, como o conceito de Tao, fundamental ao Taoísmo. Nessa última articulação, percebe-se que existe uma instância no cosmos que quase não existe, mas existe minimamente, gerando a possibilidade de, a partir de si, se emergir o cosmos. Mas, como observamos, o caminho não há apenas o caminhar a partir dessa instância primordial, mas em devir, chega-se a ele, também em um processo de descoagulação da matéria, seja através da meditação, do estado quântico ou do suscitar transformações sutis ou não, mas intensivas, nos corpos.

A partir dessas relações emerge um novo saber, que ressoa todas os saberes que atravessamos aqui, evidenciando sua imanência: a Vortexologia. O vortex emerge das relações de forças em devires mais selvagens em torno de um atrator, sendo formado por vortexes formando vortexes. O vortex é ubíquo, autossimilar, coexistente, dinâmico, relacional, transespaçotemporal e instável, podendo transcender a posteriori, como veremos ao final deste texto. A Vortexologia consiste nas seguintes instâncias: a arte evidencia o vortex, a ciência modela o vortex, a filosofia explica o vortex, a magia conjura o vortex, a meditação intensifica o vortex, a  Ética cultiva o vortex, o amor multiplica o vortex. A Ontologia Onírica vive o vortex. Sendo assim, não anunciaremos mais um "sujeito", mas um vortex. O sujeito, o objeto, bem como a sua relação são vortexes, formado por vortexes e desdobrando em vortexes. Não há mais dualidade na Vortexologia. Sendo assim, vamos evidenciar o vortex que se instala entre vigília e sonho.

Ontologia Onírica
Essas relações entre Hermetismo, filosofia e física podem nos levar a lugares imprevisíveis. Uma questão peculiar é a do sonho. A psicologia, desde Freud, delimitou o estudo dos sonhos a um modelo representacional, reduzindo os processos oníricos a um mero exercício de interpretação, herança do Cristianismo, que estigmatizou o sonho e caçou seus intérpretes. Vamos agora entender as concepções de sonho de algumas tradições antigas, pois assim adquirimos consistências para as nossas próprias conceituações.

Desdobrando o sentido da sonhabilidade do mundo, Wai-yee Li (Shulman e Stroumsa, 1999) evoca a mais conhecida narrativa onírica da China e do Taoismo, o sonho narrado por Chuang-tse: “mas ele não sabe mais se foi Zhou que sonhou que era uma borboleta, ou se foi uma borboleta que sonhou que era Zhou”. Aqui já é borrado o limite entre realidade da vigília e o mundo onírico, estabelecendo uma relação de reciprocidade entre eles: o sonho é a realidade da vigília e vice-versa, e não se pode estabelecer em qual “lado” você está, ou melhor, abdica-se do “lado” e dilui-se o realismo parcial entre os dois mundos. Em suma, o Tao de Chuang-tse é uma ontologia em que sonho e realidade estão devidamente imbricados, impondo tal característica visceralmente no pensar filosófico chinês.

Existem várias correntes budistas pelo mundo. Vamos abordar o onirismo de apenas duas. David Schuman (Shulman e Stroumsa, 1999), a partir de sua análise do poema budista “Manimekalai”, afirma que a lógica interna do Budismo não é aprendida, e, sim, sonhada. É esta lógica onírica que traz os elementos para uma iluminação, tão sonhada pelos budistas. Além disso, nesse contexto, realiza-se o que ocidentalmente chamamos de sonho lúcido, ou seja, a capacidade de estar consciente de se estar sonhando e até alterar a narrativa onírica. Nessa versão do Budismo, propõe-se até a verificação empírica de alguns sonhos, verificando a sua relação no “mundo desperto”. Nessa perspectiva, é possível, através do sonhar, deslocar o foco do self para o cosmos. A corrente japonesa budista fundada no século XII chamada Terra Pura ― o paraíso budista ― nos é apresentada por Tamaru Noriyoshi (2007) também com algumas passagens oníricas importantes. O fundador Hōnen, através de um sonho, mudou o nome de seu discípulo de Shakku para Zenchi, que depois foi ser definitivamente conhecido por Shinran. Este sonhou com um antigo mestre Kannon, e no sonho o mestre lhe afirmava que retornaria como ajudante de Shinran em forma feminina, que viria ser a filha do próprio, chamada Eshin-ni. Shinran ainda teria um sonho premonitório acerca do sofrimento das massas nas províncias do leste.

No Hinduísmo, como nos informa Wendy Doniger (Shulman e Stroumsa, 1999), o mundo em que vivemos foi, na verdade, sonhado por Deus, sendo que, nos sonhos, se encontra a mais legível forma de compreensão da realidade do universo.

O antropólogo Evans-Pritchard (2005), relata que entre os Azande é distinguido o sonho de bruxaria, que seria um mau sonho, de um sonho bom, que seria oracular. No sonho de bruxaria ocorre uma batalha psíquica entre as almas do “embruxado” com a do bruxo.

Barbara Tedlock (Shulman e Stroumsa, 1999) realizou um inventário acerca dos sonhos em tribos ameríndias. Os Zunis fazem contato com os mortos através dos sonhos a partir de rituais com peyote, realizando, inclusive, viagens no tempo. Para os Kìche Maya, os sonhos de doentes fornecem uma possibilidade de como se obter a cura. Um dos relatos mais interessantes é de uma xamã Cahuilla, conhecida como Ruby Modesto. Aos 13 anos ela foi presa ― e voltar foi muito difícil ― em um 13° nível de sonho, sendo que o 2° era o pré-requisito para o “real Sonhar”.

O controverso Carlos Castaneda (1993) revela, a partir de seus aprendizados com o nativo mexicano yaqui dom Juan Matus, que a feitiçaria mais importante era a chamada “a arte do sonhar”. Essa arte consiste em, durante o sonho, mudar o ponto de aglutinação energética da pessoa, fazendo-a percorrer outros mundos. Castaneda acrescenta que, a partir do assim chamado “terceiro portal do sonhar”, seria possível fundir os mundos do sonho e do cotidiano. É relevante notar que os conceitos de dom Juan conhecidos como tonal (mundo ordinário) e nagual (mundo desconhecido) tem ressonância com os de atual e virtual, respectivamente, no bergsonismo.

Artemidoro (2009) foi o maior intérprete de sonhos do mundo greco-romano. Nasceu em Éfeso no século II. Com sua Oneirocritica, iniciou a transição de uma concepção dos sonhos da Antiguidade rumo à Modernidade. Ele separa o sonho onírico (referente ao futuro) do sonho simples, que é acerca do presente. O intérprete onírico dá mais importância ao primeiro e se dedica a desvendá-lo. Segundo Artemidoro, o sonho onírico “é um movimento (oreinein) ou uma modelagem polimorfa da alma que significa o bem ou o mal que virá com os acontecimentos futuros”.

Moshe Idel (Shulman e Stroumsa, 1999) analisa a concepção de sonhos no Judaísmo. Nele, o estado normal de consciência é religiosamente centrípeto, envolvendo uma microcronicidade, sendo mais espiritual e remetendo à ascendência ao um: apoteose; enquanto o sonho é centrífugo, envolve uma macrocronicidade, mais material, tendendo à diferenciação e à multiplicidade, realizando uma descida rumo a uma teofania.

A Filosofia da Diferença afirma que o sonho é virtual, pois, no sono, o sensório motor é relaxado, permitindo um fluir no virtual, sendo o sonhar esse exercício atemporal. Mais precisamente, no bergsonismo, o sonhar tende a ser mais da ordem do virtual e o relato onírico - que encadeia em narrativa linear o sonhar atemporal -  é mais da ordem do atual. O relato do sonho, atualizando esse sonhar, deve ser menos interpretado e mais experimentado, como um convite a novas possibilidades de vida. O sonho não como protetor do sono, como quer fazer acreditar a neurociência, mas como uma modulação singular da vigília; em outras palavras, através da filosofia onírica de María Zambrano (2006), afirmamos que o maior desafio não é interpretar o sonho, e sim, assimilá-lo[4]. A filósofa espanhola também vai fazer uma profunda relação entre tempo e sonho, ressonado profundamente com a concepção onírica do virtual:

“[O sonho] já no tempo, mas não no seu, no tempo comum com todo o vivente. E através de si com o tempo cósmico, como se o palpitar do sangue, o inaudível rumor das entranhas fossem últimas ondas, as ondas captáveis do palpitar dos astros, do rumor do universo. Aquele que dorme sente-se assim na periferia de todo universo. Imerso na vida, mais além dela, em ritmo com o cosmos na sua totalidade. Ligado, pois, a um tempo cósmico, ao tempo físico que de alguma forma penetra nele, desliza nele por qualquer fenda, porque o envolve”. (Zambrano, 1994, p. 63)

Se, no modelo de consciência quântica de Penrose e Hameroff (Hameroff, 2012), há emaranhamento quântico no cérebro, pode-se especular que exista emaranhamento quântico entre dois ou mais cérebros e entre cérebros e outros objetos. Articulando isso a uma possibilidade da Cosmologia em que o universo pode possuir leis da física diferentes em locais diferentes (Novello, 1988), poderíamos especular também que, no sonho, emaranha-se o cérebro com locais em que o universo tem outras leis, às vezes incompreensíveis, muito diferentes deste quinhão do universo. O cosmos, assim, é entendido como um tecido também onírico, em que esse limiar entre sonho e vigília seria tão borrado quanto os limiares quânticos e clássicos do universo.

Por outra transcendência
Outro desdobramento das relações realizadas aqui, é a radicalização do conceito de devir. Se colocado em sua máxima liberdade, o devir – que, sobretudo depois de Spinoza, permite a problematização das dualidades, inclusive entre transcendência e imanência – traz uma novidade: a postulação de uma transcendência a posteriori. Se o devir é proibido de transcendência, cria-se com isso uma transcendência epistemológica: não há transcendência no devir. Isso é fato se concebermos transcendências a priori: mundo das ideias platônico, o Deus dos escolásticos, a mente de outra natureza que a do corpo, em Descartes e os imperativos categóricos kantianos. Esses conceitos, realmente, não tem lugar em uma Filosofia da Diferença, mas um devir selvagem, sem nenhuma amarra – incluso as amarras epistemológicas – pode gerar uma transcendência, é claro, a posteriori. Mas aqui, essa transcendência, de fato, transcende todo saber e experiência, não se sabe se ela existe, apenas que ela é possível de ser criada pelo devir. Não é uma nova dualidade, pois senão, já saberíamos algo em relação a ela: que a transcendência estaria em oposição à imanência. Mas não é o caso, pois essa transcendência, além de qualquer saber, está também para além de qualquer categoria, e encaixá-la em um dualismo seria categorizá-la. Também não é o advento de um descontínuo, pois, afirmando uma imanência contínua, não sabemos se essa transcendência descontinua a imanência. Assume-se aqui apenas a possibilidade de uma transcendência a posteriori, gerada pelo devir mais selvagem, e mais nada podemos saber e dizer acerca dela até então, sem criar apriorismos e epistemologias desconectadas da ontologia.

Quando é engendrado um conceito de sonho com estatuto de realidade, virtual, é também estabelecida uma ontologia onírica. Observa-se, assim, mais um elemento de tal ontologia: em devir, ela não pode ser desconectada de uma epistemologia, pois não há um saber definitivo sobre ela, visto que aqui, magia, filosofia e ciência são compreendidas como saberes imanentes. Porém, a qualquer momento pode ser engendrada, se é que isso já não foi feito, uma transcendência a posteriori, eliminando qualquer apriorismo no cosmos, uma ontologia onírica selvagemente em devir.

Outro despertar
Assim, o sonho inicia toda a magia, como diz Zambrano (1994). Mostrando aqui que a magia percorre todo o saber, a filosofia, a ciência, mas também as artes, seja através de Kafka, Francis Bacon, Borges, Neil Gaiman, David Lynch ou Christopher Nolan. A magia e a arte são as primeiras versões da almejada assimilação dos sonhos, sendo que a magia recorre a práticas que atravessam o atual. Nessas práticas está o bojo da ciência, e da apreensão desses processos, emerge a filosofia. Sonho-magia-filosofia-ciência, enfim, ontologia onírica: despertar no sonho, que é realidade. Enfim, toda ação humana é uma história da assimilação onírica, a ontologia onírica é ubíqua "epistemontologicamente". Mas tudo isso não é uma espécie de teoria geral, apenas trampolim para um “de-saber”, conceitos que promovem o abandono dos conceitos, ainda que a evocação desse dessaber seja consistente: a intuição de uma transcendência a posteriori.

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[1] Este trabalho é um resumo de minha tese de doutorado “Rumo à Ontologia Onírica: confluências entre magia, filosofia e ciência”, realizada no HCTE/UFRJ, com orientação do físico Luiz Pinguelli Rosa.

[2] A Filosofia da Diferença possui o conceito de vida não-orgânica, unindo o natural e o artificial.
[3] No limiar entre os Princípios de Mentalismo e Gênero, visto que todos os princípios coexistem, encontramos ressonâncias também com as relações na física entre matéria e anti-matéria.
[4] O analista suíco Carl Gustav Jung (2011) também vai enfatizar a necessidade de assimilação onírica, porém sua técnica ainda permanece predominantemente interpretativa. O esquizoanalista Félix Guattari (2003) em ressonância com essa questão, vai clamar a necessidade cultivar na vigília o “umbigo do sonho”, seu ponto de singularidade, de maior non sense.


                                                           María Zambrano